Precisamos de ciência espacial para cultivar uma cenoura?

No dia em que o Brasil dá um enorme passo para se tornar o principal campo de provas da indústria internacional de agrotóxicos, me chamou a atenção o artigo que acabou de ser publicado no NYTimes –Trazendo a agricultura de volta à natureza – minha tradução livre está aqui embaixo, mas se você não quer ler o textão, o negócio é o seguinte: tenham certeza, nós iremos vencer!!


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Opinião
Trazendo a agricultura de volta à natureza
Por Daniel Moss e Mark Bittman

O Sr. Moss dirige uma organização que financia práticas agrícolas sustentáveis. O Sr. Bittman escreve amplamente sobre alimentos e política alimentar.

26 de junho de 2018

Cultivar a terra como se a natureza não importasse tem sido ‘O’ modelo para grande parte do sistema de produção de alimentos do mundo ocidental há pelo menos 75 anos. Os resultados não foram bonitos: solos esgotados, águas contaminadas quimicamente, fazendas familiares quase eliminadas, um agravamento da saúde pública e muito mais. Mas surgiu uma abordagem que combina inovação e tradição, que pode transformar a forma como cultivamos alimentos. É chamado de agroecologia e coloca a ciência ecológica no centro da agricultura. É um movimento descabelado que está decolando globalmente.

Representantes de mais de 70 países reuniram-se em Roma recentemente para discutir essa abordagem para criar um sistema alimentar mais saudável e sustentável. (Estivemos lá.) Foi um encontro revigorante e encorajador, ainda mais quando José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, pediu “mudança transformadora em direção à agricultura sustentável e sistemas alimentares baseados em agroecologia.”

A agroecologia não é ciência espacial. Ela simplesmente aproveita ao máximo os recursos da natureza, extraídos da própria fazenda e dos ecossistemas circundantes, para cultivar alimentos. Mas em um sistema alimentar de US $ 5 trilhões dominado por gigantes corporativos em crescimento, o endosso da principal autoridade de alimentos da ONU [recomendando para que agricultores usem composto como fertilizante, tomem medidas para atrair polinizadores e predadores que consomem pragas agrícolas e façam policultivos para incrementar a saúde do solo] foi um golpe significativo nos olhos de uma indústria agrícola cínica, essencialmente autorregulada. É essa a indústria que nos faz acreditar que precisamos de ciência espacial para cultivar uma cenoura.

Grande parte do mundo está despertando para os custos da abordagem industrial que define a maior parte da agricultura norte-americana, com seu vício em produtos químicos e monoculturas. Um novo cálculo conhecido como CONTABILIDADE DE CUSTOS VERDADEIRA está colocando os números do dólar na contribuição da agricultura industrial para a erosão do solo, mudança climática e saúde pública. Ao mesmo tempo, cada vez mais países – impulsionados por redes de pequenos e médios agricultores como a Via Campesina – estão mudando ativamente para políticas e investimentos que apóiam os sistemas agroecológicos de alimentos.

Na Índia, o estado de Andhra Pradesh, que abriga 50 milhões de pessoas, está investindo US $ 200 milhões para converter seus agricultores à prática agroecológica conhecida como agricultura natural de orçamento zero, que usa os nutrientes da fazenda para cultivar sem usar fertilizantes químicos caros ou pesticidas, que podem empurrar pequenos agricultores para a dívida. Mais de 100.000 agricultores já estão usando esse método, e estima-se que 500.000 agricultores em 3.000 vilarejos terão adotado esse método até o final deste ano, três anos antes do previsto, segundo os organizadores. O governo planeja investir US $ 2,3 bilhões para expandi-lo para seis milhões de agricultores dentro de cinco anos.

Na África, o Centro Africano de Biodiversidade, uma organização de pesquisa e defesa, incitou o governo da Tanzânia a eliminar gradualmente os subsídios para fertilizantes químicos e acelerar a transição para a agroecologia por meio do apoio aos pequenos agricultores. Em Gana, o Centro de Conhecimento Indígena e Desenvolvimento Organizacional, uma organização não-governamental, está trabalhando com chefes locais para promover práticas florestais sustentáveis ​​que restaurem a umidade do solo para retardar o avanço do deserto do Sahel.

Ambas as organizações foram ouvidas em Roma e fazem parte da Aliança para a Soberania Alimentar na África, uma rede que pressiona os governos a aprovar leis que garantam a segurança alimentar real, apoiando os agricultores a criar e distribuir variedades de sementes resilientes ao clima. Na África Ocidental, a França planeja gastar oito milhões de euros para avançar na agroecologia. (A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional deve tomar nota.)

Nas Américas, o Coletivo de Agroecologia no Equador está fortalecendo uma rede de mercados de agricultores municipais para alcançar uma meta nacional de soberania alimentar que está consagrada na Constituição do país. O candidato presidencial mexicano Andrés Manuel López Obrador, atualmente liderando as pesquisas, endossou um plano para tornar os princípios agroecológicos a força motriz por trás da agricultura mexicana.

Os países ricos também estão embarcando. A França destinou um bilhão de euros para ajudar a maioria de seus agricultores a adotar práticas agroecológicas até 2025 por meio de treinamento, apoio, pesquisa e desenvolvimento. E nos Estados Unidos, o Good Food Purchasing Program desenvolveu um sistema que ajuda cidades e grandes instituições a direcionar seu poder de compra para alimentos produzidos localmente e de forma sustentável. Já foi adotado pelas cidades de Los Angeles, San Francisco e Chicago. (Esperamos que a cidade de Nova York seja a próxima, com várias outras cidades nas alas.)

Esses empreendimentos são ainda mais encorajadores porque são apenas alguns dos muitos exemplos em todo o mundo de fomento à agroecologia, muitas vezes em face a um sistema liderado pela indústria de subsídios agrícolas e corporativos que inclinam o campo de atuação do agronegócio e da indústria química em larga escala para fazendas de commodities de única safra e dependente-químicas.

A grande agricultura reage à agroecologia pintando-a como algo ‘até que bonitinho’, mas excêntrico, certamente não adequado ao trabalho de alimentar o mundo. (É claro que a indústria reconhece o poder da agroecologia, como pode ser visto em seu marketing cada vez mais ecológico – leia-se, greenwash).  Mas a agroecologia baseia-se 100% na ciência e na experimentação agrícola, com suas raízes nas práticas dos agricultores que conhecem suas terras e culturas e cientistas que trabalham com eles para melhorar suas práticas agrícolas sustentáveis.

Uma comparação de 30 anos realizada pelo Instituto Rodale entre agricultura orgânica vs. química na produção de milho e soja descobriu que, após um declínio inicial nos primeiros anos da transição de produtos químicos, o método orgânico “se recuperou para igualar ou superar o sistema convencional. E, em vez de tratar o solo como uma mineradora, essas práticas regeneram a biodiversidade e a fertilidade do solo”.

Cultivar mais e mais milho e soja por acre é uma medida terrível de sucesso quando se trata de destruir o solo e prejudicar a saúde. A agroecologia mede seu sucesso através de um parâmetro que inclui não só os bushels e as calorias, mas também o quão bem os alimentos nutrem as pessoas enquanto regeneram o solo e a água e ajudam mais os fazendeiros a ter uma boa vida. Técnicas agroecológicas também sequestram carbono (métodos industriais o liberam); incentivam o policultivo, que regenera a ecologia do solo em vez de esgotá-lo; preservam variedades locais de sementes em vez de substituí-las por variedades patenteadas e inacessíveis (e estéreis); sustentam culturas e pessoas de alimentos locais; apoiam empresas locais que operam perto de fazendas; e criam empregos.

A agroecologia é mais do que um conjunto de técnicas limpas: é um ethos que incentiva a definição do que um sistema alimentar realmente deveria ser. Se nós acreditamos que a produção de alimentos deve-se tratar sobre manter as pessoas e o planeta saudáveis, nós precisamos nada menos do que fazer o reboot do atual sistema industrial e criar um novo, que inclua garantias de acesso a terra para agricultores e povos indígenas, fazendo com que os mercados locais funcionem em função de pequenas e médios agricultores, assim como consumidores e trabalhadores, e praticando mais políticas públicas como o Good Food Purchasing Program.

O que foi discutido em Roma não ficará em Roma. Esse movimento não está apenas certo, está vivo e crescendo.


Daniel Moss é diretor executivo do Fundo de Agroecologia, que apóia práticas e políticas agroecológicas. Mark Bittman, ex-colunista do The New York Times, é professor da Mailman School of Public Health em Columbia. 

Veja o artigo original na íntegra (em inglês) em: https://www.nytimes.com/2018/06/26/opinion/farming-organic-nature-movement.html

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