O lado escuro dos telhados

Parece brincadeira, mas não é. A forma como estamos construindo nossos telhados está ameaçando o futuro das cidades. E não é só no Brasil. Em todo o mundo, construir cidades significa substituir o solo natural por telhados totalmente impermeáveis, áridos, quer causam enchentes, ilhas de calor e poluição do ar.

Lajes e telhados são espaços negligenciados, construídos com a única função de proteger os espaços construídos da ação das intempéries – chuva, sol, vento, frio, calor. Entretanto, em algumas regiões a área ocupada por eles chega a ser maior do que a área de fato utilizada pelas pessoas, ocasionando uma série de efeitos colaterais indesejados. Acúmulo de poeira, absorção de calor, ressecamento do ar…  Não que não precisemos de telhados, mas fica óbvio que o espaço para árvores nas calçadas e praças não será suficiente para competir com os efeitos da urbanização que vivemos – e que se intensificará nos próximos anos.

O progresso urbano cobra o seu preço

Li recentemente em um artigo que o fato de termos em alguns anos 2/3 da humanidade vivendo em cidades – de fato – não é o problema. O que é preocupante é que isso deve ocorrer dentro deste modelo de desenvolvimento urbano a que temos assistido. Em exemplo clássico é a correlação entre as ‘ilhas de calor’ e ocorrência de tempestades. Uma pesquisa realizada pela USP e publicada pelo jornal Folha de São Paulo apresenta evidências de que as regiões mais impermeabilizadas são as mais castigadas por eventos de chuva extrema – e as que mais sofrem com enchentes.

Região do Brás em São Paulo – campeão de aridez: 84,3% de sua superfície revestida com lajes, telhados, asfalto e cimento.

É só você imaginar: quando a chuva atinge a cobertura de qualquer construção convencional, a água imediatamente é conduzida pelos ralos e calhas para o chão, onde competem com a água da chuva que já corre nas ruas pelo concorrido espaço dos bueiros e outros dispositivos públicos de drenagem.

E existem diversos outros custos não contabilizados: poluição sonora, pragas urbanas, doenças respiratórias – todas sintomas de cidades que não respeitam suas conexões ecológicas, direta ou indiretamente relacionados aos telhados, coberturas e a todo processo de impermeabilização do solo. Mais além, não basta apenas ser permeável, precisamos revegetar, cobrir de verde a pele ressecada das cidades e reconhecer o potencial dos serviços ambientais para gerar qualidade de vida.

Depois de saber disso, espero que você nunca mais olhe para um telhado da mesma forma, pois saiba, boa parte do problema está em cima da sua cabeça.

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