O que NY e Barcelona tem em comum? Parte 1

Manifestantes em NY lutando por mudanças nas políticas de adaptação ao clima (peoplesclimate.org).

Além de serem duas das metrópoles mais influentes e visitadas do mundo,  estas cidades apresentaram nestes últimos meses posicionamentos agressivos para enfrentamento dos desafios climáticos urbanos. O mais interessante é que apesar da enorme diferença de escala entre estes cases (NY: 19,8 milhões de habitantes / Barcelona: 4,6 milhões de habitantes), as similaridades nos desafios e soluções são impressionantes – e meu objetivo com esta série de artigos é mostrar o que há de melhor (e pior) nas ações que estão sendo feitas AGORA em todo o mundo para melhorar as vida nas cidades.

O efeito de ilha de calor pode elevar as temperaturas dentro das cidades em até 5ºC em relação ao entorno. Novos dados sugerem que o efeito é mais ou menos pronunciado em função do tipo de paisagem – floresta ou deserto – que a cidade substituiu. Crédito: NASA (National Aeronautics and Space Administration).

Ao contrário da França que frustrou boa parte da comunidade ambientalista global com a notícia falsa de que investiria pesado em telhados verdes e painéis solares (no início de 2015 o governo francês anunciou uma nova lei que obrigaria novas construções a instalarem estes dispositivos – entretanto, esses itens foram derrubados pela indústria da construção civil e as pautas ficaram congeladas devido à discussões de custo), ao que parece, os programas novaiorquino e catalão parecem que estão levando mais a sério a questão – e vieram para ficar.

O foco é a redução do calor – e ondas de calor são realmente um problema em qualquer grande cidade submetida ao modelo atual de urbanização. Nos EUA, esses eventos já matam mais do que todas as outras causas climáticas (veja o quadro abaixo).

Mortes nos EUA decorrentes de eventos climáticos extremos – 2006-2015 (Fonte: Cool Neighborhoods NYC).

O programa Cool Neighborhoods NYC é uma complementação/reforço do programa já lançado em 2008 e que oferece abatimento de taxas para propriedades que substituem telhados escuros por telhados verdes, vivos. O programa agora foi complementado por iniciativas para (1) mitigação das causas dos efeitos climáticos, estratégias para (2) adaptação das comunidades ao calor, e (3) monitoramento para acertar a mira e melhorar a eficiência no uso de recursos.

MITIGAÇÃO

O principal avanço deste plano foi a aceitação do fato que algumas áreas e algumas comunidades dentro da cidade podem estar mais em risco do que outras, e a decisão de buscar precisão cirúrgica no uso dos recursos públicos.

Para ajudar a identificar essas áreas prioritárias para investimento, a prefeitura desenvolveu em parceria com a Universidade de Columbia um índice de vulnerabilidade ao calor (HVI – heat vulnerability index) que combina indicadores de risco ao calor, dados de saúde pública e características sociais e físicas do ambiente. Parece óbvio, mas é justamente o tipo de enfoque que permitirá atingir o maior impacto a partir dos US$106 milhões destinados ao programa.

Os telhados verdes fazem parte do conjunto de estratégias para mitigação das fontes de calor, complementadas com o uso de tinta reflexiva para telhados que não podem receber jardins, plantio de árvores em calçadas, substituição de pavimentação asfáltica por concreto, calçadas permeáveis e coloridas e implementação de dispositivos de infraestrutura verde, como por exemplo a substituição de trechos das calçadas por jardins de chuva e bioswales.

 

ADAPTAÇÃO

O prefeito de NYC e sua equipe entendem que mesmo com todo esforço para mitigação, os riscos climáticos serão uma ameaça urbana presente. Na opinião dos especialistas norte americanos, não será possível manter a população segura sem um plano de adaptação – e aí boa parte do esforço está sendo direcionado para treinamento de agentes de saúde,  organizações comunitárias, voluntários para ações de proteção em situações de emergência.

Um fato importante para o sucesso deste plano é o entendimento que boa parte da população norte americana não percebe as mudanças climáticas como um risco à saúde – isso faz com que grupos de risco não tenham consciência de ações a serem tomadas (quando chamar ajuda, p.ex.) para redução da temperatura do corpo durante ondas de calor extremo, agravando ainda mais o número e intensidade de danos para a saúde – portanto, estratégias de comunicação e divulgação são partes fundamentais do programa. Assim, ao invés de focar em grupos de jovens e esportistas, as chamadas em programas de televisão, rádio e internet podem focar na terceira idade, crianças na primeira idade e grupos de risco.

Outras iniciativas para adaptação incluem a instalação e reforma de equipamentos de ar condicionado, melhorias em janelas e ventilação, para população de baixa renda, e a instalação e sinalização de centros de resfriamento (espaços comunitários com equipamentos de ar condicionado aberto gratuitamente ao público durante eventos de extremo calor).

MONITORAMENTO

A urbanização é um processo heterogêneo por natureza. Portanto, é natural que as variações espaciais no ambiente construído da cidade resultem em diferentes níveis de risco ao calor em nível local . Quando essas informações são sobrepostas aos mapas de risco social, é possível prever como os efeitos de eventos de calor extremo serão desproporcionalmente sentidos pelas comunidades em situação mais vulnerável. Mapeamentos e monitoramentos deste tipo são componentes cruciais para acertar a mira das estratégias de mitigação e adaptação – e maximizar os impactos destes investimentos.

Pois é – eficiência parece ser o ponto de mutação para uma ação rápida de transformação. Apesar de não haver uma receita pronta para tornar o clima urbano mais agradável e reduzir os problemas decorrentes da urbanização  desgovernada, há uma direção a se seguir: a principal lição que podemos aprender com o esforço da Nova Iorque é que estratégias eficientes para regulação do clima devem levar em consideração toda a diversidade – humana e ambiental – do terreno urbano, sob pena de perda de eficiência e tempo na realização das mudanças necessárias para adaptação. E não há tempo a perder.

Em nosso próximo artigo, vamos preparar um resumo sobre as ações que estão sendo colocadas em prática em Barcelona – até a próxima!!

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