3 grandes mitos sobre a agricultura moderna

Um dos maiores mitos em torno da produção de alimentos moderna é que agricultura orgânica é inerentemente sustentável. Ela pode ser, mas não é necessariamente. Afinal, foi a destruição dos solos cultivados sem agroquímicos que minaram o império romano e outras sociedades antigas ao redor do mundo. Neste artigo, investigamos porque mitos como este dificultam o reconhecimento de que apenas a recuperação de nossos solos agrícolas poderão alimentar o mundo.


Este artigo original de David R. Montgomery (The Conversation) re-publicado pela revista Scientifc American em abril de 2017. Tradução livre pelo autor deste blog.

David é professor de Ciências na universidade de Washington e visitou experiências inovadoras ao redor do mundo para escrever seu próximo livro,  “Growing a Revolution: Bringing Our Soil Back to Life” – ele conheceu agricultores que lhe ensinaram práticas de agricultura regenerativa que tem o potencial para recuperar solos degradados em mundo. Estes agricultores rapidamente reconstruíram a fertilidade de seus solos e aumentaram seus rendimentos, ao mesmo tempo em que passaram a utilizar menos fertilizantes e pesticidas, levando o autor a questionar os 3 pilares fundamentais que sustentam a produção agrícola industrial: que ela alimenta o mundo, que é a forma mais eficiente de produzir comida, e que ela será necessária para alimentar o futuro.

MITO 1: AGRICULTURA INDUSTRIAL DE LARGA ESCALA ALIMENTA O MUNDO HOJE

De acordo com relatório recente da FAO, a agricultura familiar produz mais de 3/4 da comida mundial, que tiram o seu sustento de propriedades menores do que 1 hectare (algo como um campo de futebol). Aproximadamente 9 em cada 10 fazendas do mundo são tocadas com um sistema familiar. É claro que o mundo precisa da agricultura comercial, a não ser que todos nós quiséssemos viver e trabalhar em nossas próprias fazendas. Mas será que esses grandes empreendimentos industriais que as fazendas se tornaram são realmente o melhor, ou quem sabe, o único caminho a seguir? Isso nos leva ao segundo mito.

MITO 2: FAZENDAS DE LARGA ESCALA SÃO MAIS EFICIENTES

Uma das pedras fundamentais da economia industrial é o que se chama de ‘ganho de escala’ – quanto maior a quantidade produzida, maior a eficiência por unidade. Entretanto,  na agricultura é diferente. O fato é que sistemas agrícolas alternativos utilizam menos pesticidas, menos fertilizantes e antibióticos do que fazendas industriais – e de quebra produzem mais do que do dobro de comida por hectare do que as grandes fazendas do agronegócio. Enquanto as mega fazendas se sobressaem ao produzir aos montes um tipo particular de cultivo – como milho ou trigo – a agricultura diversificada, de baixa escala é mais eficiente: produz mais comida  e mais tipos de comida por m2.

MITO 3: AGRICULTURA INDUSTRIAL É NECESSÁRIA PARA ALIMENTAR O MUNDO

Acredito que quase todos nós já ouvimos algum defensor da agricultura industrial argumentar que a agricultura orgânica é uma receita para a fome global, devido aos seus baixos rendimentos. O maior estudo comparativo já realizado até hoje, uma meta-análise de 115 estudos de fato demonstra que a produção orgânica é em média 20% menor do que cultivos convencionais.

Entretanto, o mesmo estudo demonstra que quando a produção orgânica inclui técnicas como policultivo e rotação de culturas, a diferença comparada cai para menos de 8%. Ou seja, os autores deste estudo concluem que há preconceito na afirmação que a agricultura orgânica é menos produtiva: depende do tipo de produção orgânica.

CONSTRUINDO SOLOS SAUDÁVEIS

Não dá mais para continuar o debate sobre o futuro da agricultura simplesmente polarizando a discussão entre o convencional versus o orgânico. Isso super-simplifica toda complexidade da terra e subestima a engenhosidade dos agricultores. A chave para chegarmos a uma agricultura mais estável e resiliente parece estar na adoção de práticas que constroem solos saudáveis. Muitos agricultores já hackearam este código, adotando métodos de plantio direto, sem arado, sem rasgar a terra, integrando plantios de cobertura e complexas rotações de cultura que devem se ajustar para cada condição social, ambiental e de solo em particular.

Após um curto período de transição, tanto as fazendas orgânicas como as que ainda usam algum tipo de fertilizante ou pesticida, e que adotam este conjunto de práticas conservacionistas, reportaram colheitas que consistentemente excederam as colheitas das fazendas convencionais de seus vizinhos. A mensagem é tão simples quanto clara: os fazendeiros que recuperam seus solos utilizam menos inputs para produzir maiores rendimentos – o que se traduz em maiores lucros.

A agricultura industrial moderna é alimentada por estoques abundantes e baratos de petróleo, utilizado para combustível de para produzir fertilizantes – e isso em breve deve mudar.

Então, como nós podemos acelerar a adoção de uma agricultura mais resiliente? Criar fazendas demonstrativas deve ajudar, assim como mais pesquisas para transformar práticas específicas em princípios que sejam aplicáveis em diferentes contextos.

Nós também precisamos rever nossas políticas de incentivos agrícolas. Não faz o menor sentido continuar incentivando práticas que degradam a fertilidade do solo. Necessitamos dar suporte e recompensar os agricultores que adotam práticas regenerativas.

Uma vez que conseguimos ver além dos mitos da agricultura moderna, veremos que as práticas para conservação e construção de solos saudáveis devem se tornar as lentes através das quais devemos olhar para estabelecer as estratégias para alimentarmos o planeta a longo prazo.

Deixe uma resposta