Agricultura urbana: do romantismo à prática.

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O que é preciso para de fato tornar os espaços urbanos mais produtivos e saudáveis?

A escritora e ativista do movimento de ‘local food’ nos EUA, Debbie Weingarten sentiu na pele a dureza que é viver de agricultura urbana (e porque não ‘periurbana’) em uma das cidades mais populosas de seu país. Debbie também foi sócia da Sleeping Frog Farms (uma fazenda permacultural próxima a Tucson, Arizona) e viu de perto o movimento de agricultura local nos EUA crescer. Neste artigo publicado no canal AEON, ela conta um pouco da sua experiência e furos deste mercado que cresceu mais de 180% nos últimos anos nos EUA.

Restaurantes que prometem comprar regularmente mas raramente o fazem; chefs que compram um ou duas vezes ao ano mas anunciam produtos em seus menus regulares; mercados e feiras de produtos locais vendendo produtos tropicais no meio do deserto do Arizona. E uma multidão de consumidores que queriam desesperadamente acreditar que estavam contribuindo para a economia agrícola local, que nem notavam o preço nas etiquetas de códigos de barra coladas nos tomates perfeitamente uniformes vendidos no meio do inverno. Infelizmente casos de falsificação como estes são muito comuns no movimento de produtores locais norte americano.

A impressão é que, na sede de satisfazer o entusiasmo e demanda dos consumidores de ‘local food’, o mercado se esqueceu daqueles que dirigem todo o sistema: os agricultores.

O departamento de agricultura dos EUA (USDA) identificou em 2015 um crescimento de 180% no número de estabelecimentos de venda direta, entre 2006 e 2014. Aparentemente parece ser uma boa notícia. Entretanto, a explosão no número destas lojas e mercadinhos tem sido dirigida pelos desejos e conveniências do consumidor. A realidade econômica dos produtores ainda está longe da prática anunciada (e demandada) neste novo mercado.

De fato, aumentar demais o número de pontos de venda pode ser um tiro no pé – e a situação ficou tão complexa que publicaram um editorial com o nome “No more fucking farmer’s markets“. Em uma cidade onde os produtores conseguiam fazer vendas suficientes em uma única feira semanal, pontos de venda adicionais criaram uma diminuição nas vendas globais. Com menos vendas em potencial por ponto de venda (competição pura), os produtores foram forçados a adicionar novos mercados e pontos de distribuição à uma agenda já caótica e lotada. O próprio relatório do USDA confirma isso: “Enquanto o aumento no número de pontos de venda direta de agricultores para consumidores indica um aumento no interesse do consumidor, para alguns produtores, trabalhar com múltiplos pontos de venda pode aumentar os custos de marketing e distribuição, reduzindo os lucros da fazenda”.

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Apesar da crescente popularidade dos conceitos de ‘comida local’ e ‘farm-to-table’, os agricultores em geral não estão prosperando nos EUA.

Durante este período, registraram um declínio de 4,3% no número total de fazendas no país. Neste ano, as previsões de rentabilidade do setor eram de queda pelo terceiro ano consecutivo. A renda líquida média prevista era de (MENOS) -US$1,473. A única estatística agrícola que apresenta crescimento nos EUA é a taxa de endividamento dos agricultores. Isso quer dizer que eles estão preferindo pagar empréstimos à poupança, ração de galinha ao invés de ir ao dentista… eles estão enfrentando a difícil decisão de deixar suas fazendas.

Com a emergência do movimento de comida local como alternativa à comida industrial, muitas pessoas simplesmente transferiram suas expectativas da mercearia dos supermercados para o mercado dos fazendeiros. Os consumidores ainda esperam ampla variedade de produtos, apesar de restrições naturais das épocas do ano e geografia. Além disso, as expectativas emocionais em torno da comida local aumentaram. As pessoas querem imaginar galinhas pastando livremente em um pasto, mas não querem saber como são mortas. O mundo urbano quer que seus agricultores sejam os heróis icônicos da comida saudável. Mas é estranho estourar a bolha desta imagem romântica, levantando questões que vão fazer ou quebrar todo o movimento: poços secando, o estresse galopante dos produtores (nos EUA as taxas de suicídio agricultor são o dobro da população em geral).

É claro que existem pontos de venda que fiscalizam e exigem declaração de origem, ou simplesmente não permitem revendas. Também existem ótimos restaurantes que são honestos com a propaganda e compram regularmente de produtores locais. Mas o mercado está cheio de aproveitadores neste negócio surfando na onda do movimento de comida local.

Acredito que estamos todos autorizados a chamar a atenção de restaurantes e mercados que passam da linha para satisfazer o público que apoia o movimento de comida local. Os consumidores devem insistir que os alimentos sejam apresentados com precisão, e isso incluir fazer perguntas e solicitar programas de rotulagem.

Cabe ao consumidor defender políticas que permitam aos agricultores locais ter sucesso. Se você se importa com a oferta de queijo artesanal local, você deve se preocupar com os preços dos produtos lácteos. Se você gosta de receber sua cesta semanal de orgânicos em casa, você deve apoiar programas que aumentam a viabilidade econômica de nossos agricultores. É uma escolha. Uma decisão.

Local ou não, os sistemas alimentares são construídos nas costas das pessoas. Enquanto o sistema alimentar convencional oferece a ilusão mágica de que o alimento existe em um vácuo, removido dos seres humanos que o criam, o sistema alimentar local é uma oportunidade de criar uma conexão entre comedor e produtor. Mas com essa oportunidade vem a responsabilidade de garantir que nossos agricultores e suas necessidades permaneçam no centro.

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Essa é uma tradução livre do artigo ‘Foodie localism loves farming in theory, but not in practice‘, publicado originalmente por Debbie Weingarten para o canal AEON.

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