Paisagismo arqueológico na Amazônia e a domesticação da paisagem.

Na semana passada estivemos com nossos amigos Marcellus Oliveira e Toni Bakes em Holambra, onde entregamos alguns materiais para a aula prática sobre telhados verde no curso que estavam ministrando no Centro Paisagistico Gustaaf Winters. Não lembro bem porque, mas estávamos falando sobre a floresta amazônica ter sido praticamente toda plantada pelas civilizações pré-colombianas que prosperaram ali antes da chegada dos europeus, então lembrei de um dos artigos que mais me influenciaram, que tratava justamente sobre este tema: 1491 por Charles Mann, publicado em 2002 na revista The Atlantic.

Vista aérea de Llanos de Mojos, na Bolívia.
Vista aérea de Llanos de Mojos, várzea da Amazônia na Bolívia.

O artigo narra a viagem do autor para a região de Llanos de Morros na Amazônia boliviana, onde ele acompanhava os trabalhos de arqueologia com ninguém menos que William Balée – ele que em 1989 havia publicado um artigo estimando que aproximadamente 12% da floresta havia sido plantada pelas populações indígenas antes do contato. Este tema é pura gasolina, que já incendiou intensas e amargas batalhas acadêmicas entre os defensores das teorias de ocupação humana na Amazônia. Entretanto, parece que mesmo esta estimativa foi feita de forma bastante conservadora. O especialista em antropologia botânica Charles Clement, do Instituto de Pesquisas da Amazônia, entrevistado por Mann no artigo, acredita que “basicamente toda a floresta foi criada pelo homem”.  Ele argumenta que os nativos pré-colombianos modificaram tanto a distribuição como a densidade de espécies em toda a região. Outro artigo de Clement, publicado em 1999 na revista Economic Botany, apresenta uma lista de espécies nativas amazônicas classificadas em diferentes graus de domesticação (selvagens, incidentais, domesticação incipiente, semi-domesticadas, domesticadas) e coloca a domesticação da paisagem como principal forma de agricultura praticada pelos nativos:

Ao contrário dos europeus, que plantavam principalmente cultivos de ciclo anual, os índios centraram sua agricultura na inacreditável biodiversidade de árvores da Amazônia: frutos, castanhas e palmeiras – se você pode plantar árvores, você ganha 20 anos de produtividade ao invés de 1 ou 2.  Além disso, “pode ser tremendamente difícil desmatar uma área para cultivo apenas com ferramentas de pedra“, alfineta Clement.

A vida nos Llanos. Concepção artística de um assentamento na região de Llanos de Mojos, cerca de 2 mil anos atrás. (pintura de Dan Brinkmeier).
A vida nos Llanos. Concepção artística de um assentamento na região de Llanos de Mojos, cerca de 2 mil anos atrás. (pintura de Dan Brinkmeier).

A domesticação da paisagem é um processo consciente de manipulação humana da paisagem, resultando em mudanças na ecologia e demografia das populações de plantas e animais, resultando em um paisagismo mais produtivo e agradável para os humanos (Chase 1989; Harris 1989; Yen 1989). Clemente demonstra em seu artigo que, como qualquer processo evolutivo, a intensidade deste paisagismo pode variar conforme o grau de manipulação aplicado:

1. Paisagem Intocada: uma paisagem que não sofreu manipulação humana nas populações de plantas e animais. É improvável que houvessem paisagens intocadas na Amazônia em 1492, assim como é improvável nos dias de hoje.

2. Paisagem Promovida: nesta categoria, algumas populações de plantas são encorajados através de mínimas intervenções de manejo e aumento de áreas de bordas. Mesmo com baixos níveis de intervenção humana, os componentes biológicos da paisagem podem permanecer modificados mesmo depois de longos períodos de abandono da área.

3. Paisagem Manejada: Nesta categoria, a diversidade e abundância de alimentos e outras populações de plantas úteis são encorajadas através de manejo parcial, expansão de áreas de bordas, transplante de plantas individuais, plantio de sementes selecionadas ou podas e supressão de competição com plantas não úteis-desejadas. Cabem aqui os chamados ‘jardins florestais’. Mais uma vez, os componentes bióticos da paisagem podem se manter mesmo após longos períodos depois que os humanos abandonam o manejo da área – aqui se encaixam alguns dos muitos tipos de florestas antropogênicas descritas por Michel Balée, como por exemplo algumas ilhas de florestas de palmeiras, bambus e cipós.

4. Paisagem Cultivada: Esta categoria envolve a completa transformação dos componentes bióticos da paisagem para favorecer o crescimento de uma ou algumas poucas espécies selecionadas, através através de manejo florestal, desmatamento, queimada, aração localizada ou extensiva, preparação de canteiros, supressão de plantas invasoras, poda, compostagem, mulching e irrigação. Os componentes desta paisagem artificial não sobrevivem por muito tempo após o abandono humano da área, simplesmente porque as intervenções que favorcemm as populações das espécies selecionadas pelo homem também favorecem o crescimento de ervas daninhas e a invasão de espécies pioneiras de floresta secundária. Entretanto, leva um longo tempo para que a paisagem retorne ao seu estado natural. As transformações abióticas praticadas na paisagem frequentemente sobrevivem por longos períodos, como por exemplo, os trabalhos de movimentação de terra encontrados em diversas partes das áreas de várzea no norte da América do Sul, como por exemplo os Llanos de Mojos (que mencionamos acima) ou os Lanos del Orinoco. Nesta categoria de paisagismo cultivado, encontramos técnicas de rotação de cultivos / corte e queima (também conhecido como coivara, aqui se encaixam alguns outros tipos de florestas antropogênicas descritos pelo Willian Balée, como por exemplo as florestas de castanha do Brasil (Bertholletia excelsa), bacuri (Platonia insignis), cacau (Theobroma cacao), e pequi (Caryocar brasiliense). Também se encaixam aqui técnicas de monocultivo, onde a paisagem é dominada por uma única espécie, como por exemplo, mandioca e milho.

Se fizermos um paralelo desta classificação da paisagem com o mundo urbano dos telhados verdes, arrisco sugerir que os jardins extensivos deveriam fazer o caminho inverso nesta escala. Explico: enquanto os jardins de uso intensivo se mantém claramente dentro de uma classificação de paisagem domesticada e dependem definitivamente da ação humana para sua manutenção, um jardim extensivo deve idealmente buscar mais autonomia – e por que não, sustentabilidade.

Após o input inicial de energia para montagem dos componentes do cultivo, o paisagismo pode ser pensado para gradualmente se desconectar da dependência humana – ou seja, a criação de paisagens promovidas e manejadas que atendem às necessidades humanas (que no caso dos telhados verdes podem ser bem variáveis, como a produção de alimentos, redução de ilhas de calor, etc.), mas que também se adaptam e sobrevivem com os recursos que são naturalmente disponibilizados.

Pois é, se queremos trazer um pouco da floresta para a cidade, acho que está na hora de aprendermos um pouco com quem, pelo jeito, já fez o maio projeto de paisagismo do planeta Terra. Quem sabe?!


Harris, D. R. 1989. An evolutionary continuum of people-plant interaction. Pages 11-26 in D. R. Harris, and G. C. Hillman, eds. Foraging and Farming: The evolution of plant exploitation. Unwin Hyman, London.

Chase, A. K. 1989. Domestication and domiculture in northern Australia: a social perspective. Pages 42-54 in D. R. Harris, and G. C. Hillman, eds. Foraging and Farming: The evolution of plant exploitation. Unwin Hyman, London.

Yen, D. E. 1989. The domestication of environment. Pages 55-75 in D. R. Harris, and G. C. Hillman, eds. Foraging and Farming: The evolution of plant exploitation. Unwin Hyman, London.

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