Abelhas no telhado verde – o que fazer?

Abelhas – especialmente do gênero Apis – Está aí um assunto polêmico. Enquanto parece haver uma comoção global com o desaparecimento em massa destes polinizadores, nas cidades esses insetos continuam temidos e são motivo de grande controvérsia: são considerados animais peçonhentos, pragas urbanas e há orientação para bani-los do ambiente de convívio humano (existe uma orientação do IBAMA que autoriza o seu extermínio).

Ok. O fato é que o Ministério da Saúde registrou 10 mil casos de acidentes com abelhas em 2013, com 40 mortes em todo o Brasile apesar da mídia muitas vezes tratar do assunto de forma sensacionalista (o cinema já se incumbiu criar a sua versão assassina das abelhas, à la tubarão), muitas pessoas são alérgicas e realmente podem ter problemas sérios de saúde com apenas algumas picadas.

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O próprio site do departamento de controle de zoonoses da cidade  de São Paulo  reconhece que não há como prever a chegada de um enxame e/ou estabelecimento de uma colmeia num local. Porém, existem algumas orientações importantes a fim de evitar acidentes.

Caso você identifique a formação de uma colmeia em sua residência, siga as seguintes recomendações:

  • Não jogar nenhum produto sobre o enxame ou colmeia, como álcool, querosene, água ou inseticida, porque neste caso elas podem se sentir ameaçadas e picar;
  • Retirar do local ou das proximidades pessoas apavoradas, alérgicas à picada de abelhas, crianças e animais;
  • Não bater, tocar ou fazer movimentos bruscos e ruidosos próximos à colmeia;
  • Entrar em contato com o telefone 156, para a relatar ou denunciar o problema, assim que for detectado, para o órgão competente Covisa-CCZ (Coordenação de Vigilância em Saúde – Centro de Controle de Zoonoses) encaminhar uma equipe técnica para avaliação e adoção das medidas adequadas para solucionar a questão.
  • Em caso de reincidência de instalação da colmeia no mesmo lugar, deve-se tomar providências no sentido de eliminar esse abrigo, como, por exemplo, vedar frestas ou buracos por onde elas adentraram, remover materiais inservíveis (caixotes, móveis, pneus, etc) entre outros.

Entretanto, não precisamos chegar ao ponto de também querer banir os jardins. Precisamos lembrar que, diferente dos locais onde temos as colmeias estabelecidas, na maioria dos jardins as abelhas estão apenas de passagem e frequentarão o local durante apenas algumas horas do dia, enquanto fazem a colheita do pólen. Além disso, com um olhar mais atento, você poderá notar que as abelhas domésticas (Apis spp.) não são os únicos polinizadores que estão se alimentando em seu jardim – milhares de espécies de meliponideos, abelhas nativas sem ferrão, também forrageiam nestas flores. Eu sei que parece chover no molhado, mas a polinização tem uma importância GIGANTESCA para a manutenção da vida no planeta. Se você ainda não acredita, veja o documentário Vanishing of the Bees! É muito legal e ilustra bem o dilema que vivemos.

Se ainda assim a presença dos bichos for um problema, basta chamar um jardineiro e pedir para ele trocar a vegetação. Muitas espécies não possuem flores que atraem abelhas, o que elimina instantaneamente a presença do enxame neste jardim.

No início deste ano tivemos uma solicitação de um cliente antigo, um condomínio vertical de prédios em São Paulo, que havia instalado uma grande área de telhados verdes nas lajes do primeiro pavimento – a idéia era deixar as janelas dos apartamentos com a vista de um jardim, ao invés de uma vista para uma laje seca. O problema é que durante a primavera, as espécies cultivadas no local floresceram, atraindo uma quantidade enorme de abelhas (Apis e também meliponideos nativos sem ferrão) que passam dias inteiros coletando o pólen. Infelizmente chegamos tarde para sugerir a troca da vegetação, e a direção do condomínio já havia desmontado uma área de aproximadamente 100m2 do telhado verde. Os módulos de cultivo vegetados ainda estavam em perfeitas condições, então a direção do condomínio nos perguntou se havia interesse em reutilizar o material – respondi que sim. Então sugerimos a um amigo, que há um bom tempo queria experimentar com os telhados verdes. Ele topou na hora (valeu Fer!!).

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Depois do trabalho pesado, uma feijoada vegetariana para comemorar o novo jardim.

Em fevereiro passei uma tarde com ele e mais dois jardineiros que nos deram uma mão no trabalho pesado. Subimos os quase 500 módulos já com o substrato de cultivo e a sementeira e depois foi só fazer os encaixes. Não instalamos irrigação nenhuma. Neste início de primavera recebi a foto e o comentário abaixo:

Tá demais! Mas ainda vou querer colocar um sisteminha de irrigação em breve. Praticamente zero irrigação. Desde aquele dia eu devo ter regado com a mangueira umas 5 vezes no máximo. Nos momentos mais críticos. O trem é bão, sô! A minha filha acabou de subir comigo no telhado. Pirou na quantidade de abelhas. Muito legal…

Pois é, sem pânico, desta vez conseguimos salvar o jardim.

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Telhados verdes, assim como qualquer jardim, oferecem uma série de serviços ambientais para o ecossistema urbano: polinização é um deles.

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