Você sabe o que é Etnobotânica?

Você já ouviu falar em Etnobotânica? Pois é, hoje quero contar um pouco mais sobre esta ciência que está no coração de nosso trabalho como ambientalistas.

Etnobotânica é a ciência que integra os conhecimentos da antropologia à botânica – uma evolução da botânica aplicada, foca o estudo das plantas no contexto das tradições culturais, desenvolvimento de usos e tecnologias humanas, conservação e sua aplicação no mundo moderno. Conheci a etnobotânica (e demais etnociências) logo no início da faculdade de agronomia em Botucatu (interior de São Paulo), quando comecei a trabalhar como estagiário no departamento de horticultura – eu fazia parte de um grupo de estudos sobre plantas medicinais sob orientação do professor Lin Chau Ming – um super craque da botânica que (entre outras milhares de coisas) realizava trabalhos na reserva extrativista Chico Mendes, no Acre – o objetivo era proteger as informações da medicina tradicional das patentes da indústria farmacêutica. A meta era a repartição de benefícios.

Eu trabalhava com extração de óleos essenciais e análise química de princípios ativos, mas já estava me sentindo enclausurado dentro de tanto laboratório e abstrações bioquímicas. Foi mais ou menos na mesma época que comecei a me envolver com agroecologia – estávamos em 1996 e isso AINDA era considerado como um tipo de heresia dentro das escolas de agronomia – pra se ter uma idéia, quando falávamos sobre permacultura, agrofloresta, éramos hostilizados dentro da universidade e era comum ouvir de outros estudantes coisa do tipo ‘árvore pra que? só vai atrapalhar o trator!!’. Provocações à parte, vi que a agricultura estava muito além do agronegócio e comecei a acompanhar trabalhos junto a comunidades tradicionais quilombolas no Vale do Ribeira – fazia parte de trabalhos de promoção de sistemas agroflorestais e farmácias ‘vivas’ populares. A Fabiana estava cursando Ecologia na UNESP em Rio Claro e também começou a se envolver, fez vivências em assentamentos de reforma agrária no Pontal do Paranapanema e começou um trabalho de entrevistas e coletas para um primeiro estudo etnobotânico de plantas medicinais em Itu.

Foi quando o professor Lin nos convidou para participar do trabalho de identificação das espécies que havia coletado durante seus trabalhos em Xapuri. O trabalho era uma parceria com o Jardim Botânico de Nova Iorque – fizemos as malas e pegamos o primeiro avião para a ‘big apple’, onde alugamos um apartamento no Bronx (tks Michael Nee!!), ao lado do jardim botânico. Lá fomos estagiários e trabalhamos sob a orientação do professor Douglas Daly, botânico experiente, e também conhecemos o professor Miguel Piñedo da Universidade de Columbia, que nos ‘encaixou’ em algumas excursões com seus alunos de pós-graduação e pudemos conhecer algumas empresas incipientes no mercado de cosméticos naturais que começavam a despontar em NY.

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Laboratório no herbário do Jardim Botânico de Nova Iorque, no Bronx.

Voltamos para o Brasil, a Fabiana se graduou em 1999 e eu em 2000. De volta, rodando em círculos durante alguns meses atrás de emprego, chegamos a produzir plantas medicinais no quintal e vender mudas pelo correio. Um email de NY mudou o rumo para o norte. O Miguel Pinedo estava coordenando um inventário de técnicas agrícolas tradicionais na reserva de Mamirauá (cerca de 500km a oeste de Manaus, subindo o rio Solimões) e perguntou se a Fabiana tinha interesse na vaga. Ela topou na hora. Eu fui na cola, escrevi um projeto de pesquisa etnobotânica e consegui uma passagem aérea e salário de estagiário pra começar a trabalhar.

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Nossa casa e base de pesquisa na reserva Mamirauá – flutuante Horizonte na época da cheia.

Chegamos em Tefé de avião no fim da tarde e as 5hs da manhã do dia seguinte zarpamos em um bote de alumínio 6hs rio Solimões acima, até encontrar o barco Mamirauá – ali encontramos com o Jomber, peruano, amigo do Miguel que iria ser nosso orientador no local.

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Nosso barco de apoio para viajar entre as comunidades – o ‘espera aí’.

Passamos os próximos 8 meses vivendo entre nossa casa flutuante (salve flutuante Horizonte!) e as 4 comunidades que trabalhamos (Horizonte, Marirãna, São João e Aiucá) e além dos relatórios sobre a produção rural de subsistência, preparamos um livro sobre os remédios caseiros e medicina tradicional, que foi publicado pelo SEBRAE de Manaus, tendo como autores os moradores de cada comunidade que participaram do trabalho – uma forma de reconhecer e tornar público que aquelas informações pertenciam àquelas pessoas e àquele local.

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Reunião na escola da comunidade Marirãna.

Resolvemos aprofundar o trabalho e começamos um mestrado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) – sim, em Florianópolis – era uma opção interessante pois era um dos cursos de mestrado referência em agroecologia no país e tinha uma parceria interessante com o INPA (através do professor Charles Clement, em Manaus – estendi a pesquisa etnobotânica para outros tipos de uso além dos medicinais e incluímos a identificação de técnicas e espécies locais usadas na construção civil, ferramentaria, alimentação, comércio, alimentação animal e lenha. A Fabiana voltou para as praias do Solimões – principais ‘campos’ de cultivo de feijão e milho na Amazônia – para estudar a agricultura tradicional de praia e a conservação de tartarugas (sim, lá elas também desovam nas praias, mesmo quando plantadas com milho).

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Pesquisa da agricultura tradicional de praia. Desde antes de Colombo as praias de toda a Amazônia já eram cultivadas em larga escala com milho e outras espécies.

Após várias pontes aéreas entre Florianópolis e Tefé, defendemos nossos mestrados e antes de finalizar o curso, fui contratado para trabalhar em Manaus, como analista de projetos junto à Fundação AVINA dando suporte aos projetos apoiados na Amazônia. Aí entraram os telhados verdes, mas essa é outra história e fica para outro post.

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