Pelas barbas de Júpiter – ou como um imperador romano criou a primeira lei para telhados verdes da história.

Pois é, parece que os telhados verdes já estão há milênios na pauta dos administradores públicos. Um documento do império romano datado do ano 800 d.C. (Capitulare de Villis) já decretava que os agricultores sob as asas do império deveriam cultivar uma planta chamada ‘barba de Júpiter’ sobre seus telhados: Et ille hortulanus habeat super domum suam Iovis barbam (“E o jardineiro deve ter sua própria casa, sobre as barbas de Júpiter“).

Nesta época, a prática de construir telhados verdes era muito mais comum do que nos dias de hoje. A maior parte dos camponeses neste período cobria suas habitações com a técnica conhecida como sod roof (precursores dos telhados verdes modernos), basicamente uma estrutura composta por placas de turfa (pasto e solo) sobre uma estrutura de madeira protegida por peles de animais embebidas de gordura. Era uma técnica bastante popular devido ao baixo custo de construção e ótimo isolamento térmico, que manteve-se predominante até o final do século XIX com o advento da industrialização das telhas que conhecemos hoje.

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Sod roof em Oslo (Noruega). Apesar de estar associada ao norte da europa, a técnica era amplamente utilizada em todo o continente desde a antiguidade.

Entre os anos 371 e 287 a.C. (1.000 anos antes do decreto do imperador), o botânico grego-romano Teofrasto (filósofo que educou Alexandre, o Grande) descreveu a presença da espécie Sempervivum tectorum cultivada sobre paredes e telhados (daí o nome latim ‘tectorum = do telhado’) ao longo da costa mediterrânea. Era uma superstição comum as pessoas desta época acreditarem que a presença desta espécie (chamada popularmente por ‘barba de Júpiter’) no telhado as protegeria dos relâmpagos enviados por Zeus (ou Júpiter) – consequentemente também protegendo a casa contra incêndios.

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Sempervivum tectorum: Carlos Magno decretou o cultivo destas plantas suculentas sobre os telhados de grama e palha para evitar incêndios.

A prática de cultivar Sempervivum tectorum nos telhados (na verdade, esta e outras espécies de plantas suculentas com aspecto similar) chamou a atenção dos historiadores quando Carlos Magno (795 d.C), imperador romano e unificador de grande parte do norte europeu, ordenou que todos os súditos do império plantassem a ‘barba de Júpiter’ em seus telhados, presumivelmente como medida de segurança contra incêndios ocasionados pela queda de raios. Mais tarde, com a introdução desta ‘inovação tecnológica’ pelos romanos no norte da Europa, esta planta passou também a ser chamada ‘barba de Thor’ (o deus do trovão nórdico).

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Estátua romana de Júpiter – Museu de Sabratha (Líbia). Semprevivas por conta do autor deste blog.

O pavor que os romanos tinham dos incêndios ocasionados por raios era justificável se você imaginar uma Europa coberta telhados de grama e palha!! As pessoas acreditavam que cultivar esta espécie no telhado iria protegê-las de um raio, da mesma forma que eles as protegeriam do fogo. Isso parece bastante razoável, já que as plantas suculentas armazenam água em suas folhas e são muito mais difíceis de pegar fogo do que, por exemplo, gramíneas no telhado.

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Cópia da Capitulare de Villis – Políptico original de Carlos Magno: documento do dia-a-dia dos camponeses no final do império romano.

Não se sabe ao certo se o decreto foi cumprido ou não, mas o que chama a atenção é o fato dos telhados verdes já estarem registrados na pauta político-econômica do império romano. Estes documentos históricos chamados Polípticos eram inventários de estado que descreviam os recursos humanos e físicos do latifúndio, especialmente mosteiros. Cerca de trinta sobreviveram desde a europa de Carlos Magno. Eles oferecem uma perspectiva única sobre o mundo sócio-econômico dos camponeses cujas vidas eram dependentes dos senhores destas grandes propriedades. 

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