Um telhado verde não faz verão

Hoje quero apresentar duas variáveis que fazem falta nas atuais iniciativas de incentivo aos telhados verdes no Brasil – mas antes, uma primeira pergunta: porque a administração pública deveria abrir mão de parte de seu orçamento e investir o dinheiro do contribuinte para subsidiar a instalação de telhados verdes em empreendimentos de iniciativa privada? Aqui resposta é simples: porque telhados verdes trazem benefícios públicos. Não importa se é cultivado sobre uma garagem de uma residência ou sobre os terminais de um aeroporto, todos transformam áreas problemáticas em prestadores de serviços ambientais para a cidade.

Relatórios recentes , as ações climáticas apoiadas pelo C40 incluem desde a instalação de telhados verdes até linhas rápidas de transito para ônibus de transporte público.
Em relatórios recentes , as ações climáticas apoiadas pelo C40 incluem desde a instalação de telhados verdes até linhas rápidas de trânsito para ônibus de transporte público (AP foto/Seth Wenig).

Um dos destaques na agenda pública global tem sido o uso dos telhados verdes como ferramenta de adaptação da infra-estrutura urbana – ele está presente nos planos estratégicos da maior parte dos chamados C40 (grupo de grandes cidades para liderança do clima), trazendo uma proposta positiva para os desafios do adensamento populacional, impermeabilização do solo, ilhas de calor, deficit de áreas verdes, etc. Graças a robustos programas de incentivo, a Europa já instala 11,3 milhões de m2 ao ano e lidera o movimento global de adaptação.

Agora, mesmo que haja consenso global sobre o seu uso para amortecimento de enchentes e redução de carga térmica, etc., será que deveríamos subsidiar a instalação de telhados verdes sobre qualquer tipo de construção, em qualquer lugar? Pode ser que sim, mas temos 2 variáveis – escala e locação,  que poderiam ser levadas em consideração na hora de priorizar investimentos:

  • Tamanho é documento – quando penso em um telhado verde como tecnologia de impacto, o que importa é o tamanho da área de aplicação. A transformação (resultado do investimento) só passa a ser perceptível quando convertemos em jardim áreas contínuas e de grande extensão. É fácil visualizar: experimente deixar um único vaso com uma samambaia dentro de um carro com todas as janelas fechadas, ao longo de uma noite inteira. Ao verificar na manhã do dia seguinte, provavelmente nada terá acontecido. Experimente agora colocar 20 vasos de samambaias dentro do mesmo carro.  Você ficará surpreso ao notar no dia seguinte que os vidros estarão todos embaçados, cheios de micro-gotículas de água. A mesma analogia pode ser feita para qualquer jardim. Um único telhado verde trará pouco impacto na umidade relativa do entorno, mas um bairro todo ou um shopping center com telhados verdes irão alterar toda a condição de umidade, temperatura e fluxo de enxurradas de uma região. Imagine os grandes galpões industriais e de logística, que facilmente cobrem com telhas mais de 10, 20 mil m2 de áreas de solo, cobertos com vegetação. Na Suíça, Alemanha e Inglaterra, telhados verdes tem sido utilizados para formar corredores ecológicos para fluxo de fauna e flora, re-conectando o fluxo gênico entre parques  e fragmentos florestais isolados.
  • Na hora certa, no lugar certo – se o dinheiro público é concorrido e escasso, é preciso eleger prioridades e selecionar locais onde temos a melhor relação de investimento/impacto. Se o objetivo é reduzir enchentes, é preciso levar em consideração o relevo do solo da cidade e, ao invés de promover telhados verdes em áreas dispersas, teríamos um impacto maximizado se o mesmo investimento fosse concentrado nos pontos geradores do problema – neste caso, imagine uma meta de 100% de cobertura verde dentro de regiões delimitadas/estratégicas em topos de morro, divisores de águas, assim como nas calhas/várzeas de rios e bordas de lagos – isso alteraria imediatamente o fluxo de enxurradas nestas regiões. Se o objetivo é melhorar a sensação térmica e respiratória, é preciso identificar as ilhas de calor na cidade e promover a meta de 100% de cobertura verde nestas regiões. Se objetivo é criar áreas de lazer, temos o exemplo do High Line Park em Nova Iorque ou até mesmo as propostas de revitalização do minhocão em São Paulo. Se o objetivo é reduzir ruídos, deveria ser utilizado nas regiões de entorno de aeroportos e em hospitais.
Jardins verticais no minhocão em São Paulo: ação concentrada contra ilhas de calor.
Jardins verticais no minhocão em São Paulo: ação concentrada contra ilhas de calor. (divulgação Movimento 90º)

Entretanto, nenhuma destas análises estão contempladas nos atuais projetos de lei em andamento no país. Algumas prefeituras vêm propondo a obrigatoriedade dos telhados verdes sobre qualquer edifício acima de 3 andares; enquanto outras propõem descontos variáveis em taxas como IPTU e ITBI. A longo prazo, sem dúvida estas iniciativas irão contribuir para o mosaico de áreas verdes da cidade, mas tem impacto disperso e não resolverão rapidamente problema algum.

Dada a urgência para adaptação e escassez de recursos públicos, acredito que os subsídios públicos deveriam ser concentrados e priorizados nas iniciativas de maior impacto – quero dizer, grandes coberturas, topos de morros, divisores de água, calhas de rios e entorno de lagos, regiões de ilhas de calor, entorno de aeroportos e hospitais. Estes projetos piloto poderão ser avaliados e criticados pela comunidade técnica e científica, e nos dirão se estamos indo na direção certa. Mas pelo menos teremos indicadores e poderemos mensurar seus resultados.

Estima-se que o mercado de telhados e coberturas no Brasil entregue anualmente cerca de 628 milhões de m2. Considerando apenas a fração de lajes e coberturas plantas (1% desta movimentação), onde as tecnologias de telhados verdes são mais acessíveis, temos todo ano um potencial de transformação estimado em 6,28 milhões de m2, que ao invés de contribuírem para o problema, poderiam fazer parte da solução. Pode parecer pouco, mas parece uma boa direção para um primeiro passo.

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