Telhados verdes avançam, mas programas de incentivo precisam evoluir.

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Por Edilaine Felix em O Estado de São Paulo de 14/12/2013.

O conforto ambiental que vêm de cima

Telhados verdes são opção para reduzir a temperatura e aumentar umidade do ar em edificações; e ainda podem diminuir gastos

Elas podem ser feitas de pe- quenos jardins ou de áreas maiores com árvores de porte razoável e espelho d’água. Podem até mesmo abrigar pequenas hortas, como no topo do Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo. Mas o fato é que as coberturas verdes no topo de edifícios reduzem a temperatura e aumentam a umidade do ar do local.

A conclusão é de um estudo que comparou um prédio que possui um “pequeno bosque” no seu topo, o edifício-sede da Prefeitura de São Paulo, o Conde Matarazzo, com o Edifício Mercantil/Finasa, que possui telhado de concreto. Ambos estão localizados no centro da capital paulista. O resultado do estudo do geógrafo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Humberto Catuzzo faz parte da sua tese de doutorado: Telhado verde – impacto positivo na temperatura e umidade do ar.

“Analisadas a temperatura e a umidade relativa do ar, a primeira ficou 5,3 graus Celsius menos quente (na Prefeitura) em relação ao Mercantil e a segunda ficou 15,7% maior”, diz o geógrafo. O Matarazzo tem uma área de cobertura de dois mil metros quadrados, sendo que a área de jardineiras é de 484 m2.

O telhado verde da Prefeitura é denominado, segundo Catuzzo, de intensivo – composto por árvores e arbustos, grama permanente e exige alta manutenção. “Também é chamado de telhado jardim.”

O pesquisador explica que existem ainda outros dois tipos de telhado: o extensivo, com vegetação rasteira, geralmente gramíneas, e o classificado como semi-intensivo, constituído por gramíneas e arbustos. Na cobertura do Edifício Matarazzo há espécies arbóreas de porte médio a alto, nativas e exóticas, incluindo palmeiras e um espelho d’água com 30 m2, com carpas, informa a administração.

Segundo o geógrafo, os benefícios dessa cobertura são grandes, mas temperatura e umidade relativa do ar são os principais. Catuzzo também destaca que ela representa redução no gasto de energia, pois aumenta o conforto térmico interno da edificação, diminuindo o uso do aparelho de ar condicionado. Por fim, ele lembra: antes de ser instalado é necessário calcular se as estruturas suportarão o sobrepeso de um telhado verde.

No mercado. Apesar dos benefícios, esse tipo de cobertura é muito pouco utilizada pelo mercado imobiliário. A construtora e incorporado Even, no entanto, informa possuir mais de 30 empreendimentos com telhados verdes. “Nos nossos telhados priorizamos espécies de baixa manutenção. Por isso, trabalhamos mais com espécies diversas de suculentas”, diz o diretor executivo de sustentabilidade da empresa, Silvio Gava.

As suculentas são plantas com folhas gordas e cheias de líquido, que aguentam passar o dia todo sob o sol.

Gava conta que a Even utiliza essas coberturas principalmente em lajes que cobrem o pavimento térreo, guaritas e similares. “Elas reduzem bem a temperatura dos ambientes e, portanto, há uma economia de energia no uso de ar condicionado”, diz o diretor da Even.

“E também existe um fator estético, porque o visual das unidades se torna mais agradável, já que, em vez de lajes, há jardins”, acrescenta Gava.

Shopping center tem horta cultivada com lixo orgânico

Eldorado planeja ampliar a área de cultivo e ter plantas em toda a extensão do seu teto de 9.800 metros quadrados

O Shopping Eldorado, em Pi- nheiros, na zona oeste da capi- tal, tem uma horta de 2.500 me- tros quadrados em sua cobertu- ra de 9.800 m2.

No telhado são cultivados capim-cidreira, hortelã, erva do-ce, carquejo, malva, sálvia, alecrim, bálsamo e poejo, berinjela, jiló, cebola, pimentões, pimentas, salsinhas, alfaces, gengibre, tomates, manjericão, morango, pepino, abobrinha, gazânia e lavanda, que dão colorido e um cheiro agradável ao local.

Alimentação. “A ideia surgiu pela necessidade de diminuir o lixo orgânico produzido na praça de alimentação que chega a 300 toneladas de alimentos por mês”, afirma o gerente de operações do Shopping Eldorado e um dos idealizadores do projeto, Marcio Glasberg.

Todo esse resíduo orgânico é separado, passa por um sistema de compostagem, instalado no próprio shopping, e produz 14 toneladas de material por mês, que é utilizado para adubar as plantas da cobertura.

“Além do benefício de produzir alimentos, existe o ganho indireto de não ter o sol direto na laje, diminuindo o uso de energia (para refrigerar a área interna) e água.”

De acordo com Glasberg, em cinco anos o shopping center pretende estar com toda a sua cobertura tomada por área verde. “Teremos um jardim, com árvores.”

Projeto obriga edifícios a ter cobertura verde

O diretor executivo do Instituto Cidade Jardim, Sérgio Rocha, diz que é bom haver políticas públicas a respeito, mas é contra a obrigatoriedade. Ele se refere ao Projeto de Lei 1.703/11 do deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP), em tramitação na Câmara Municipal de São Paulo e que obriga condomínios com mais de três andares a instalar telhados verdes em suas coberturas, “O projeto precisa ser melhor avaliado e pensar nos modelos e nos impactos para cada região. Deve haver políticas de incentivo”, afirma.

Para ele, é necessário avaliar o zoneamento da cidade para conhecer as áreas que sofrem mais com as enchentes e então aplicar políticas de acordo com cada região.

“O telhado verde traz mais benefícios para grandes áreas, locais próximos de rios e no entorno de morros, auxiliando na drenagem de água e reduzindo enchentes”, afirma.

Para o geólogo Humberto Catuzzo, as políticas públicas são fundamentais para a implantação de telhados verdes. “Em cidades da Europa e dos Estados Unidos, o poder local por meio de políticas públicas concedem incentivos financeiros para a implantação dos telhados, ou até mesmo redução na cobrança de impostos para quem implantá-los”, diz.

Permeável. Para Rocha, o telhado verde é uma ferramenta. “Ele converte uma área de concreto em permeável. Por isso, pensamos em uma tecnologia que leve em consideração a sustentabilidade, as enchentes e a energia”, diz.

Para entender mais sobre o funcionamento desses telhados, Rocha visitou a Europa, que tem, inclusive, políticas públicas para a implantação de coberturas verdes.

Hoje, o instituto conta com uma equipe de engenheiros, arquitetos e biólogos, que fazem uma análise estrutural do prédio para identificar qual o melhor tipo e telhado verde a ser aplicado no local. “Precisamos saber também se é para cultivo, ou para melhorar a drenagem.” Segundo Rocha, um estudo americano revelou que os impactos na temperatura e na umidade do ar em edifícios com telhados verdes podem variar de 7% a 70%, dependendo do tipo adotado. Os custos para instalação de um telhado verde podem variar conforme a tecnologia adotadas e os materiais utilizados, Em São Paulo, o preço do metro quadrado com montagem pode sair de R$ 150 até R$ 300.

 

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