A cidade e as árvores

Quando caminho pelas cidades por onde passo, uma das coisas que mais me chamam a atenção é a arborização urbana. Observando onde e como as árvores estão dispostas nas cidades, imediatamente nota-se que a arborização nunca é homogênea. Algumas  regiões estão repletas de belas árvores. Outras nem tanto. Será que há um padrão que explique porque algumas áreas dentro da cidade conservam grandes aglomerados de áreas verdes? Percebi que sim. Após um olhar mais atento, comecei a identificar o que delimitava e discriminava uma área da outra, e logo pude listar/dar nomes os elementos urbanos que podiam ser isolados em função da densidade de árvores e em função do seu uso para a sociedade – escolas, praças públicas, centros comerciais, áreas residenciais (públicas e privadas), áreas industriais, cemitérios, centros esportivos e de lazer, shopping centers, etc, etc… Resolvi estudar um pouco o assunto.

Obviamente minha atenção inicial ficou voltada às praças públicas – minhas lembranças da infância sempre remetem a imagens de praças com fontes de água, coretos para música, gente jogando dominó, festas, igrejas, comércio dos ambulantes – todo esse movimento imerso em um ambiente densamente sombreado. Como se essa sombra permitisse a pausa, e a pausa desse origem a tudo isso. Esse é quase um arquétipo urbano – as praças. Quase toda cidade nasce em uma praça e quase toda praça é inaugurada com o plantio de pelo menos uma árvore. Todas as praças que posso ver do alto deste morro conservam grandes árvores.

Mais do que a pausa, essas praças densamente arborizadas prestam outros valorosos serviços para a sociedade. Se pudesse eleger o mais importante, sem dúvida responderia: ‘regulação térmica’. Como as árvores estão vivas e mantém o calor estável dentro de seu corpo, durante as horas mais quentes do dia a troca térmica entre o ar e a superfície das árvores tende ao equilíbrio, ajudando a resfriar o ambiente. Nos dias frios o mesmo fenômeno acontece, invertido, ajudando a esquentar o ar. O imenso volume de água em forma de vapor que elas despejam na atmosfera a cada segundo colaboram neste sentido. Essa diferença na temperatura do ar, faz com que o ar mais frio e mais pesado (com mais água) movimente o ar quente ao seu redor, empurrando-o e distribuindo-o nas vizinhanças das praças, finalmente ajudando a fazer com que todo o clima próximo a esses locais fique mais confortável. Sem dizer da permeabilidade do solo, contenção de deslizamentos de terra, da poeira no ar, do oxigênio, os passarinhos… o carbono… Mas isso todo mundo já sabe.

O que eu não havia notado é que as praças não são as únicas a conservarem maciços de árvores. As escolas também. Depois das praças, as maiores árvores que identifiquei foram bravamente protegidas dentro dos muros e arames farpados de alguma escola. Desde as escolas mais antigas e tradicionais (públicas ou privadas), passando pelas escolas públicas mais novinhas construídas na década de 1970 e até as recentes escolas privadas – todas ostentam árvores de grande porte.

Pequenas diferenças de cada época, como os prédios coloniais com jardins cheios de topiarias em sub-bosque e árvores que facilmente ultrapassam mais de 20 metros de altura, os jardins remanescentes de famílias mais abastadas e agora ocupados por escolas, ou os gramados com filas indianas aglomerando patas de vaca, ipês, flamboiãs, jerivás, cicas, chuvas de ouro, sibipirunas… As escolas, por natureza, tem vocação para plantar e manter árvores vivas. Talvez sejam as crianças…

Terrenos baldios… apesar da dengue, terrenos abandonados também foram identificados como conservadores de árvores de grande porte ou mesmo maciços de vegetação densa. Quando a cidade é vizinha do sítio, sempre existem propriedades rurais que fornecem alimentos para o centro urbano. Sempre foi assim. Toda cidade tem seu cinturão de alimentos. Quando a cidade avança sobre o rural, novos loteamentos são demarcados e novos bairros surgem, transformando a paisagem. Eventualmente alguns terrenos não são ocupados e, por sorte, alguém um dia esquece de atear fogo e aos poucos alguma semente teima em germinar. A sucessão florestal é incansável e espécies pioneiras sempre iniciam o processo de recomposição da cobertura vegetal. Mesmo sobre asfalto ou pedra, havendo calor e água, as plantas irão se estabelecer se deixadas em paz.

Por outro lado, é preciso reconhecer que não gostamos de grandes árvores perto de nossas casas. Quando observamos a arborização nas áreas residenciais, se as folhas ultrapassam o limite imaginário dos fios nos postes, é hora da poda. Poda drástica é pouco. Algumas vezes chego a confundir uma árvore podada com um poste. O corte nos galhos é tão agressivo que o algoz não poupa única folha, restando palitos em pé, eretos, as vezes retorcidos. Felizmente não inventaram de podar as raízes como num bonsai, para controlar o tamanho dos galhos e evitar que os mesmos danifiquem a fiação (aliás, nunca entendi porque colocam as árvores exatamente embaixo dos fios de poste). Então será preciso mutilar novamente as valentes amigas no próximo ano. Diversos fatores ajudaram a criar esse ideário popular sobre boas práticas na poda de árvores – um vendaval que derruba galhos e causa estragos nas casas e carros, folhas que caem durante o ano todo e que dão um trabalho danado para empurar para fora da calçada com um esguicho. Nada que não possa ser evitado com planejamento e prevenção, mas no final, o que está valendo ultimamente é a máxima: quanto menos galhos e folhas na árvore, melhor.

Como agora estamos falando do papel das áreas residenciais como criadoras de verdadeiros desertos urbanos, vale lembrar que a decisão final é do morador. Guardadas as devidas proporções, desde a favela, o bairro operário, o condomínio urbano de alto padrão, todos evitam a presença de grandes árvores. Esse padrão, essa escolha consciente de manter as árvores longe de onde dormimos é outro arquétipo. Nossa civilização há tempos busca mais conforto e segurança. Desceu das árvores, ocupou as savanas, domesticou ervas e animais, criou religiões e cultos, enfim, criou sua cultura – cultura, aquilo que é cultivado… “e Ele lançou sementes sobre o chão, essas encontram solo fértil e germinaram…”. Estamos cheios de metáforas agrícolas.  Nossa herança é agrícola e não florestal. Mesmo as florestas que plantamos são mais parecidas com plantações de alface do que com uma floresta natural.

As mais maravilhosas cidades que criamos receberam a honra de serem chamadas de ‘cidades jardim’. Hoje, mais do que um luxo, cidades jardins são necessárias por toda parte, mas se queremos que elas existam, precisamos agir individualmente. Pode ser diferencial de mercado, pode ser para ter frutas frescas, pode até ser porque esquecemos de cortar – o importante é manter em pé o maior número possível de árvores dentro das cidades. Estou falando dos serviços que elas prestam e não existe dinheiro ou tecnologia suficiente no mundo para substituir esses serviços – grandes civilização entraram em ciclo de declínio-colapso por menosprezar os serviços que as árvores prestavam. Me refiro especificamente às árvores e não a gramados que se espalham rapidamente – eu sei das facilidades e dos benefícios das placas e rolos de grama para ajudar no trabalho de estabilização de terrenos. Mas manter um gramado aparado em frente de casa não deveria deixar ninguém muito orgulhoso. É óbvio que é melhor do que deixar o solo exposto, mas o ponto aqui é o volume de biomassa – peso e volume vegetal. Dizer que para cada árvore derrubada serão plantadas 1.000 novas árvores é um roubo – é trocar um gigante de 30 toneladas de biomassa que joga toneladas de vapor d’água na atmosfera por 1.000 bebês frágeis de 300 gramas cada. Se queremos um mundo melhor, novos empreendimentos deveriam ser planejados sob uma nova perspectiva.

Muito além da crítica sobre a forma como as pessoas maltratam os espaços verdes públicos e privados nas cidades, esse artigo reconhece um padrão de comportamento, indicando bons e maus exemplos de como a vegetação urbana vem sendo historicamente mantida, conservada. Há uma cultura de conservação em nossa sociedade e é preciso evidenciá-la e promovê-la. Outros comportamentos devem ser desestimulados e combatidos em favor de cidades mais saudáveis e sustentáveis. O papel do indivíduo é fundamental. Regulamentação é fundamental. Ações afirmativas são fundamentais. Mais do que apenas proibir cortes e empregar multas, devemos afirmar quais comportamentos devemos promover com isenção de impostos e outros instrumentos.

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